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"A Regressão - Memórias de um Assassinato" Capítulos 1 à 3


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A Regressão

 






Memórias de um Assassinato










                                                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                    Gabriel de Aquino




Prefácio

 Esta é uma história de ficção e suspense. Baseia-se em regressão de memória, espiritualidade, sonhos, pesadelos, assassinatos, ação, obsessão, romance e aprendizado. Uma história repleta dos mais saborosos ingredientes para quem procura por uma boa trama de suspense com um final surpreendente.

A Regressão – Memórias de um Assassinato retrata a história e vida de Daniel, um sujeito que tem sérios problemas com os seus sonhos.

Daniel sempre sonhou com uma mulher, mas nunca dera importância para tal fato. Mas, os seus sonhos tornam-se pesadelos cotidianos e, ele resolve procurar a ajuda de um especialista. À medida que Daniel entra mais fundo em seu psicológico perturbado, sua vida atual começa a tomar outro rumo. Cada noite é mais longa e cada dia é mais tenso.

As cenas de seus sonhos sempre são diferentes, mas esta mulher está presente em todos seus doces pesadelos e, desde que começara esta regressão de memória, Daniel começa a sofrer constantes ameaças de um homem que invade sua vida e sua intimidade. A partir desse momento, Daniel começa a enlouquecer e sua vida atual transforma-se em um inferno verídico. Daniel, em sua paranóia obsessiva diária, não percebe que o seu casamento está se diluindo em meio às lágrimas de sua tão adorável esposa e, por estar tão ocupado com seu passado, ele começa a esquecer-se de seu presente.
A cada regressão, Daniel descobre um fragmento de sua última existência, que não esclarece com exatidão o seu tão tumultuado passado, porém, ele tenta a cada segundo ordenar o seu desordenado subconsciente.
Esta é uma deliciosa leitura para os amantes do suspense e um excelente teste para seus nervos.
A Regressão – Memórias de um Assassinato, certamente irá tirar o seu sono!




Gabriel de Aquino



O Autor.





Capítulo I



A Regressão


      Feche os seus olhos e comece a relaxar. Respire fundo e, lentamente, expire. Concentre-se na sua respiração. A cada respirada você vai se sentindo mais relaxado. Agora imagine uma luz branca e brilhante sobre você focando, neste instante, um momento sublime de puro relaxamento. Esta luz flui por todo o seu corpo. Permita-se deixar levar no momento em que estiver mais relaxado e a luz se dissipar. Agora, quando eu contar regressivamente de dez a um, você vai se sentir mais tranqüilo e calmo. Dez. Nove. Oito. Sete. Seis. Você vai entrar num lugar seguro, onde nada nem ninguém poderão machucá-lo. Cinco. Quatro. Três. Dois. Se em algum momento você precisar voltar, tudo que tem a fazer é abrir os olhos. Um.


A Transição


                 Como é estranho este sentimento de confiar em uma pessoa pela qual nunca senti absolutamente nada. Mas de alguma manipulada forma, eu confio nele. Como posso confiar naquele estranho? Não sei. Mas, não há outra alternativa.
                 Meu Deus! Tudo começa rodar agora. Cada vez mais rápido. Uma luz me cega agora. Estou com muito medo. Nunca senti tanto medo antes. A luz diminui sua intensidade, mas ainda não vejo nada além dessas luzes coloridas. Uma outra luz me deixa livre do medo e da dor. Minha mente subconsciente começa, agora, a reunir o meu passado. Nada parece ser real. Parece que tudo se perde em meio à névoa, como num sonho perturbado. Assim que a névoa vai se dissipando, a cena vai ficando cada vez mais clara. É como assistir à minha vida em uma imensa tela.
                 Vejo agora uma mulher que tenho a certeza de conhecer.
      Olá, Glória! Estou tão contente em vê-la novamente, minha amiga.
                 A imagem se dissipa novamente. Eu estou vagando em meio ao nada. Estou começando a sentir medo novamente. Me sinto tão mal sem saber o que está acontecendo, ou o que vai acontecer. Mas, de uma forma estranha, eu sei que posso confiar no hipnotizador.
                 Agora, a luz me deixa seguro novamente e, estou a ficar tranqüilo novamente. Mas isto tudo é um estranho deja vu. Um monte de cenas que nunca vi, mas que tenho a nítida sensação de tê-las visto em algum lugar do meu passado. Será? Deixo essa sensação subconsciente tomar conta de minha mente. Que pesadelo agradável. Eu mal posso esperar para saber o que tem por trás de toda essa luz. Atrás dela devem estar as respostas para meus sonhos. Pedaços inacabados de uma vida inteira. Espero chegar logo. Mal posso esperar pelo alívio de meus doces pesadelos. Mais perto agora. Uma cena fica cada vez mais clara, como a luz que me rodeia.


A Casa


                 Vejo então uma casa antiga, mas que parece ter sido construída recentemente. É uma casa grande, com dois pisos, um pátio enorme e, o que mais me intriga, é que esta casa não é cercada. Como se fosse um lugar seguro, sem crimes, sem violências, como numa cidade do interior, onde todos se conhecem e não há perigo.
                 Não entendo... Se parece tão familiar, por que sinto tanto medo dela? Por que sinto como se algo ruim fosse acontecer de novo? E a pior de todas as minhas perguntas: Por que de novo?
                 Agora me vêm à cabeça as palavras do hipnotizador de que, se em algum momento eu sentisse medo, só teria de abrir os meus olhos. Não preciso ter medo. Vou tentar entrar nesta casa.
                 Caminho em direção à porta de entrada da enorme casa. Paro em frente a ela. Não sei se devo abri-la. Sinto um imenso desejo de abri-la, mas tem um sentimento de culpa no ar, além desse enorme frio que faz aqui fora. É tudo muito confuso ainda. Coloco minha mão sobre a maçaneta, que destranca a porta como num passe de mágica. Vejo o interior da sala. A mobília toda de época, parece ser da década de 20 ou 30. Há um requinte muito grande em toda a sala, muito aconchegante. A lareira está acesa, aí se explica o porquê do calor gostoso daqui de dentro. Não vejo nenhuma televisão na sala, o que é bem curioso. Uma casa como esta sem uma televisão é meio estranho. Caminho lentamente pela sala, em direção a uma porta no fundo da sala à direita. No momento só vejo a porta, está escuro, não vejo mais nada. Chego na beira do marco da porta. Estranhamente não havia nada depois do marco mas, assim que pisei no limite do marco, a imagem do corredor se construiu na mesma hora. Caminho por este corredor e, nele encontro retratos pendurados nas paredes. Retratos que tenho a sensação de já tê-los visto. No fim deste corredor encontro uma grande escadaria, pela qual me sinto extremamente atraído. No topo dela, há vários quartos, mas somente um me atrai para o interior dele. Entro neste distinto quarto. Nele, sinto tanto frio quanto senti lá fora. Encontro na penteadeira uma moça penteando-se em frente ao espelho. Ela é linda. Porém, não com a beleza a que estamos acostumados, mas sim, com a beleza da pureza, da serenidade, da virtude, da sinceridade e, sinceramente, não sei nem como explicar. Vou me aproximar dela para ver se a conheço. Chego mais perto, ela ainda permanece de costas para mim, só vejo o reflexo no espelho que não revela quem ela é, mas parece que a conheço. Coloco minha mão sobre seu ombro e, vendo agora com clareza, através do espelho, posso dizer:
      Como você está linda, Glória!
Sou agora atraído por um raio de luz vindo da janela. Caminho em sua direção para ver que tão lindo raio é este. Apoio minhas mãos no parapeito da sacada, observando atentamente aquela luz que parece me cegar. Como num filme, minha alma é levada daquele quarto para outra cena de minha vida. Mas, por enquanto, só vejo luz e uma névoa que se aproxima.
     Minha mente encontra-se um tanto conturbada com todas essas imagens que me aparecem sem o menor sentido. Não compreendo muito sobre regressão. Só sei que voltamos para o nosso passado para solucionar traumas de infância, podendo ir, até mesmo, resgatar um problema “intra-uterino”. Mas, todas as cenas que vi até agora são flashes de uma vida que nunca tomei conhecimento. Não sei explicar quem são as pessoas que vi, tampouco os lugares que estive. Mas tudo tem um cheiro de saudade. Não consigo solucionar esta charada.


O Limbo

Meu Deus! A névoa começa a dissipar-se novamente e, eu mal posso esperar pela nova surpresa que poderá destrancar a minha mente.
Vejo um homem ao longe. Ele lentamente começa a avançar em minha direção, como se não houvesse pressa para nada.
Ele está na minha frente. Tem uma aparência de homem maduro. Ele me passa uma certa paz interior. Parece ser alguém em quem posso confiar, mas é uma confiança diferente da que tenho no hipnotizador.
Então, ele chega perto e diz:
      Rapaz! Você procura respostas no lugar errado. Procure em sua mente questionadora. Procure em seu íntimo, em seus defeitos, em suas manias e, encontrará as respostas para seus medos, meu jovem.
Ele vira-se e caminha na direção oposta a que veio, sumindo no limbo antes que eu pudesse lhe fazer qualquer pergunta sobre o que ele quis dizer com tudo aquilo, mas lembrei de que nunca se tem as respostas assim, tão fácil. Tem-se de merecê-las.
Está tudo tão confuso. Com certeza não sou aquele que eu pensei que conhecia. Vive-se anos de sua vida para depois descobrir que nem você se conhecia.
Não consigo mais me sentir seguro quando fico aqui sozinho. Tudo parece real, mas como um sonho de sensação real, não como a vida. Um modo novo de enxergar a vida. É como um quebra-cabeça que se tem de juntar as peças para entender a figura que há nele. Ou como nosso olho que, na verdade, enxerga apenas um pequeno ponto da imagem e emite para o cérebro, que trata de juntá-las e formar a imagem inteira.
Estou envolto pela luz novamente. Tudo gira como da primeira vez. Só Deus sabe o que está para acontecer. Que Deus me ajude!
Seguro na luz que me rodeia, fico cada vez mais calmo pelas palavras do hipnotizador e, cada vez mais curioso para decifrar esta charada.
A luz começa a se dissipar e  a névoa toma conta do ambiente. A cena, obscura pela neblina, começa a tomar forma. Mais um pedaço de minha frágil memória iniciará seu trabalho.


O Grande Amor

Vejo uma estrada de chão batido que parece não me levar a lugar algum. Caminho por ela, sem um rumo, sem destino, sem entender o que estou fazendo. Mas, não tenho alternativa.
Começo a sentir uma sensação agradável, uma forte excitação, como se tivesse de me esconder de alguém, como se houvesse um perigo eminente.
Subo agora uma pequena ladeira. Deve ser no topo dela que está a imagem que tenho de ver para encaixar mais uma peça do quebra-cabeça.
Chego ao topo da tal ladeira. Há uma gruta num rochedo muito bonito, com uma suave cascata perto dela. A paisagem é mesmo estonteante, algo realmente de cinema. Vejo agora aves um tanto quanto exóticas, mas muito belas.
Me encontro na entrada da gruta. Adentrando mais um pouco, posso ver em seu interior um casal numa cena de árduo romance. Não sei o que eles têm a ver com o meu passado, mas tenho de observá-los para entender meus pesadelos. Não consigo ver quem são. Me aproximo e vejo o rapaz que, apesar de não me lembrar dele nos meu sonhos, tenho a sensação de conhecer. É muito estranha a sensação de conhecê-lo... A moça encontra-se de costas para mim.
Nada se encaixa... Já estou ficando louco! Só vejo imagens que aparentemente já vivenciei, mas nada faz o menor sentido.
 Ambos vestem roupas de época, roupas da década de 20 ou 30, não tenho bem certeza, só conheço o que vi em filmes.
Ele agora retira o casaco que veste e estende-o no chão, ela retira seu chapéu e deita-se em cima do casaco do rapaz. Ela está puramente bela. Ele deita-se ao lado dela. Eles parecem bem íntimos e estão conversando docemente sobre algo que não posso ouvir. Parecem estar muito apaixonados. Um casal típico de época, com todo aquele romance no ar, que não se vê mais nos dias de hoje. Ele acaricia seu rosto como se fosse a última vez que se veriam e a beija com uma enorme volúpia. Ele encaixa sua perna direita entre as coxas dela e acaricia seus seios, num longo beijo ardente. Ele então se posiciona sobre a moça e parecem começar a ter uma relação sexual. Me aproximo mais e mais para tentar identificar melhor a cena. Algo estranho acontece... Sou tragado por um vácuo inexplicável. E agora começo a ver a cena através dos olhos dele. Estou sentindo um prazer, o qual nunca havia experimentado antes; algo totalmente novo, um tesão imensurável. Será que isto é amor terreno? Não sei! Só sei que é uma sensação incomparável. Posso agora ver o rosto da moça com quem estou fazendo amor. Meu Deus, é a moça dos meus sonhos! Não pode ser ela. Pelo amor de Deus, quem é esta mulher? Quem é Glória? Estou quase atingindo o orgasmo. Estou apavorado com a cena, mas não consigo parar de fazer amor com esta mulher. O orgasmo vem chegando e, não sei se estou preparado para tal êxtase. Ahhh!
Gozo e a cena, então, termina.
Sou, então, tragado novamente por um vácuo que me retira da cena da gruta e me joga em frente àquela casa antiga.


O Desespero


Parece que entrei em outro estágio da regressão, pois não tive de passar novamente pela passagem das luzes para trocar de cena. As coisas começam a andar cada vez mais rápidas, mas continuam a não fazer o menor sentido para mim.

Entro na casa para ver o que encontro desta vez. A casa parece vazia e, há um ar de mistério que a envolve. Passo pela sala onde encontram-se somente os móveis. Seguindo pelo corredor, subo a escadaria e sigo novamente atraído por aquele quarto de outrora. Paro em sua porta e me deparo com uma cena curiosa. Um novo personagem da minha obscura memória me é apresentado. Um homem sentado na cama de casal com suas mãos cobrindo o rosto. O que ele faz no quarto de Glória? Ele ergue a cabeça. Está chorando. Não consigo entender o que ele diz. Só posso ver a cena, porém, sem som. Parece um horrível cinema mudo. Ele tem uma expressão desesperadora e, eu me sinto angustiado por não poder ajudá-lo. Ele levanta-se da cama e caminha até o espelho; olha-se em prantos e dirige-se ao criado mudo abrindo-o e pegando um objeto envolto numa flanela. Ele está abrindo a flanela... Meu Deus, é uma arma! O que ele deseja fazer? Quem é este sujeito? Quem sou eu? Quem é Glória? O que faço aqui? Tantas perguntas, nenhuma resposta. Acho que vou enlouquecer.
Vou tentar acompanhá-lo para decifrar este enigma. Ele sai em desespero do quarto, desce as escadas em um ritmo frenético, mal consigo acompanhá-lo até a porta. Agora, estando na porta da casa, não consigo atravessá-la. E, com isso, perco a imagem dele.
Começo a ficar em meio ao breu. Já não sei mais o que pensar.
 
 
A Despedida

Caio, agora, em outro labirinto mental.
Está Glória e o mesmo rapaz que, através de seus olhos, acabei de vivenciar a cena da gruta.
Ela fala e soluça de tanto chorar e, ele escuta com a cabeça baixa. Vou me aproximar para tentar entender o diálogo. Agora posso ouvi-los.
      Jean, não posso deixá-lo, pois ele nos mataria se apenas sonhasse que somos amantes. Tu não sabes o quanto a honra vale para ele...
Jean a interrompe:
       Sei o quanto vale a honra dele, meu amor. Mas o meu amor por ti é capaz de mover montanhas. Por favor, deixe-o para casar comigo. Vamos fugir para...
      Jean, entenda, é para evitar um mal maior que eu tenho de deixar-te. Não quero ver o meu verdadeiro amor morto. Mesmo, sem poder tocar-te, meu Jean, pelo menos estarás vivo para que eu possa contemplar-te, meu querido amor, e, lembrar-me de todo o tempo que passamos juntos, que com certeza foram os melhores momentos da minha vida.
      Tu não podes me abandonar, meu amor. – Diz Jean, com a voz trêmula e gaguejante de choro.
      É o que deve ser feito para salvar nossas vidas. Se fosse só a minha que corresse perigo, eu não me importaria de continuar com os nossos encontros e, até mesmo, fugiria contigo. Mas, como a tua vida também corre perigo, tanto quanto a minha, não posso aceitar continuar. Tu sabes que se ele descobrir, nos perseguirá até o inferno para lavar sua honra com nosso sangue.
      Se pensas assim, Glória, nada mais tenho a dizer-te, meu amor. Só adeus!
      Não diga adeus, meu amor. Diga até breve, pois assim, fica a esperança de um dia nos encontrarmos num longínquo lugar, onde poderemos ficar juntos e viver em paz, sem que ele possa nos encontrar.
Eles despedem-se. Talvez para toda a vida.
As coisas estão começando a querer fazer sentido. Tenho inúmeras pistas, só tenho de associá-las agora. Estou curioso para saber como termina esta história de amor e, principalmente, descobrir o que esta história tem a ver comigo.
Minha história, minha vida, minhas memórias começam a tomar forma. Meus pensamentos fluem como água doce que vai de encontro ao mar e se mistura. A confusão começa a se tornar fusão de pensamentos. Uma integração do passado com o presente. Um bálsamo para as minhas angústias.


O Trabalho


Me vejo em outro dia, outra cena de minha memória.
Sou posto nas ruas desta cidade. Caminho para ver o que encontro. Lojas antigas, casas antigas; parece ser o centro da cidade, mas tudo é muito rústico, apesar de ter aparência de recém construída. Continuo a caminhar. As pessoas vestem-se com roupas da década de 20 ou 30. Ainda não sei bem em que ano estou. Mas, é tudo tão velho e, ao mesmo tempo, tão novo para mim. Vejo uma construção sendo realizada e paro em frente a ela. Vejo um homem trabalhando nela, que aparenta ser o arquiteto ou engenheiro. Caminho para perto dele, que está discutindo com um dos peões da obra. Vou até ele para ouvir o que diz ao rapaz. Não posso acreditar! O rapaz com quem ele está discutindo é Jean, o jovem que, através de seus olhos, vi a outra cena. E quem é o homem com quem ele discute? Ele encontra-se de costas para mim. Ele vira-se agora. É o mesmo homem que vi chorando na cama da Glória, que saiu correndo com uma arma na mão. Que estranha ligação têm esses dois? Agora começa a embaralhar a minha cabeça. Qual será a ligação que ambos têm comigo? Cada cena que vejo me deixa mais curioso e confuso. Ouço o homem, que discute com Jean, falar:
      Jean, tu és o responsável pelo andamento desta obra, então faz o teu trabalho direito, antes que eu perca a cabeça com a tua incompetência.
      Eu não entendo o que tu queres de mim...
      Não me chames de “tu” na frente dos peões. Eu já te falei que esse tipo de atitude faz com que eles percam o respeito, achando que são do mesmo nível que eu.
      Mas, qual é o problema? Eles também são seres humanos...
      Jean! Não me venhas com esta tua conversa humanitária. Para mim, eles tinham que trabalhar o dia inteiro e, depois, ainda, ir para o tronco...
      Mas, a escravatura já acabara há décadas.
      Não. Claro, os dois brancos que trabalham conosco não seriam açoitados.
      Não falo disso, pelo amor de Deus! – Diz Jean.
      Não me interessa o que tu pensas. O fato é que tu não sabes administrar o teu pessoal...
      Eu não lhe compreendo. A obra vai ser entregue dentro do prazo previsto, talvez até antes...
      E se tu tivesses pulso firme, já teria sido entregue e, estaríamos realizando outro projeto.
      Compreenda, não são máquinas, não são locomotivas e, até as locomotivas precisam de descanso.
      Então transforme-os em tais locomotivas...
      Será que não tens outro problema que queiras desabafar... – Questiona Jean.
O homem se altera e começa a gritar no canteiro de obras:
      Não tenho mais nenhum outro problema, rapazote. E mesmo que o tivesse, não seria da tua conta!
      Desculpe-me, eu só estava tentando ajudar-te...
      Me ajudas fazendo o teu trabalho e não me perturbando com tuas besteiras. – conclui o homem exaltado.
A imagem vai se diluindo e, eu ainda não achei nenhuma resposta para os meus problemas. Estou ficando um tanto quanto receoso de que esta regressão não traga as soluções que vim buscar através dela. É tudo tão terrivelmente novo para mim, mas, ao mesmo tempo, é tudo que já vi, seja através de meus olhos, quanto através dos olhos de outrem.
É horrível como as pessoas se julgam onipotentes... Por que ele tinha de tratar Jean daquela forma? Não adianta, por mais que eu tente entender o mundo em que vivo, não sou capaz de aceitar as coisas apático, como eu fazia. Fazia? Aceitação nunca foi meu forte. Acho que vou enlouquecer se não obtiver as respostas logo. Questionar sobre a minha vida está sendo muito mais difícil do que simplesmente aceitá-la. Não me sinto tão seguro como antes. Estou experimentando toda a minha ignorância e fragilidade. Não vou mais sofrer como da primeira vez, nem me decepcionar como da última vez. Acho que estou enlouquecendo, pois os pensamentos vêm e vão e, eu não consigo acompanhá-los.


Mentores

Estou, agora, aqui para entender sobre o meu passado, que cada vez mais me foge às mãos. Vejo, agora, aquele homem que vi da outra vez em que estava perdido. Ele vem caminhando com toda a paciência de outrora. Eu, angustiado por respostas, o interpelo:
      Senhor! Por favor, me dê respostas. Eu preciso compreender, pois estou enlouquecendo. Por favor, não diga que as respostas estão dentro de mim. Eu preciso de respostas concretas...
      Meu caro amigo, tudo na vida tem seu preço...
      Por favor, não me venha com mais charadas...
Ele parece irritar-se com minha franqueza e altera o tom de voz.
      Este é o seu problema, jovem. Não tem paciência para nada. Isto aqui, caso não tenha percebido, é um teste de paciência e perseverança. Se desistir, nunca terá suas tão almejadas respostas.
      Então, o que o senhor tem a me dizer desta vez?
      Rapaz, você sabia que uma garota foi assassinada aqui? Uma boa garota, mas muito submissa ao seu marido. Ela tentou livrar-se das garras dele, mas não conseguiu. Ela era tão jovem, porém, sua vida não foi poupada por causa disso.
      Mas, senhor, o que eu tenho a ver com essa garota?
      Acalme-se, meu jovem. Tudo em seu tempo.
      Sim, mas eu preciso de respostas...
            O homem o interrompe:
      Sem fé e sem paciência não haverá paz de espírito.
            Eu tento respostas completas, mas o homem só responde com charadas. Então, ele me diz:
      Você está sozinho agora. Lembre-se: as respostas, com as quais você sempre sonhou, sempre estiveram com você. Abra os olhos, Daniel.
            Ao ficar sozinho, ouço uma voz ao longe me dizendo:
      Você saberá a verdade sobre seu passado quando você conseguir encaixar o passado no futuro.

 
Capítulo II


O Retorno

                
      Agora, Daniel, você vai começar a retornar ao presente. Você começa a se sentir cada vez mais relaxado e tranqüilo. Sua alma, agora, retorna ao seu corpo sem nenhum dano mental. Você lembrar-se-á de tudo que viu como solução de sua mente desordenada. A partir de agora, o passado não poderá mais interferir no seu presente. Você estará gozando de um novo presente livre das dúvidas e das dívidas que no passado se encontram. Seguro na luz que lhe rodeia, quando eu terminar de contar regressivamente de dez a um, você retornará calmo, tranqüilo e sereno ao presente sem nenhuma avaria cerebral. Dez. Nove. Oito. Sete. Seis. Você não terá mais porquê ter medo do seu passado que talvez, ainda esteja obscuro. Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Abra os olhos, Daniel!
                 Daniel abre os seus olhos e, de fato, está mais tranqüilo.
      Como está se sentindo, Daniel? – Pergunta o hipnotizador.
      Bem! – Ele dá uma pausa, respira e fica pensativo.
      Conseguiu alguma resposta?
      Não, não encontrei resposta alguma. As coisas estão mais embaralhadas do que antes. Não consigo entender... Não era para ter solucionado os meus problemas?
      Não se preocupe. Às vezes a solução está mais perto do que imaginamos, mas são necessárias mais algumas sessões.
      Estou me sentindo tão cansado... Exausto, para dizer a verdade.
      É normal. Seu cérebro trabalhou um lado que ele dificilmente trabalha e, com isso, você se cansou muito mais do que se tivesse trabalhado braçalmente. Mas, vá para a sua casa agora, descanse, relaxe e reflita sobre tudo que você viu hoje, tirando suas próprias conclusões. Se achar que deve fazer uma nova sessão, é só marcar e a faremos.
      Bom, eu vou indo, então.
      Tá o.k., então.
Daniel levanta-se do divã e caminha até a porta do consultório. Despede-se do hipnotizador e dirige-se para o carro.
O dia está tão nublado quanto seus pensamentos.
Tudo parece ter passado: as angústias, os medos, a desesperança... Contudo, não pode começar uma vida nova livre dos pesadelos, pois ele ainda não decifrou a charada de sua vida.
Em seu carro, a vida parece passar tão depressa quanto a paisagem lá fora. Escutando uma música tão estranha quanto seus nebulosos pensamentos, Daniel vai-se deixando envolver, “curtindo” cada segundo daquela estranha música. A tal música parece hipnotizá-lo. Ela chama-se Fear of the Dark, da banda Iron Maiden. A letra fala muito sobre sua recente vivência. Fala de medos, obsessões e paranóias.


A Vida Atual


Daniel chega em casa numa felicidade que lhe toma conta do rosto. Entra em sua casa, que lhe oferece todo o conforto de uma bela casa moderna de classe média/alta.
Indo até a cozinha, ele encontra sua esposa Natasha. Ele a pega nos braços e a beija com voraz paixão, como se tivesse acabado de retornar de uma guerra.
      Natasha, onde está Jeferson?
      Está no berço, dormindo. Por quê? O que aconteceu? Você voltou tão estranho do consultório. Como foi a sessão de regressão? – Natasha o questiona.
Caminhando apressadamente em direção ao quarto, ele responde à pergunta da esposa:
      Foi ótima!
Ele atravessa a sala, que contém todos os itens para uma vida confortável, indo em direção à escada, que leva ao piso superior do sobrado. Daniel, ao entrar no quarto do menino, pára em sua porta e fica observando cada detalhe do quarto. Natasha acha tudo muito estranho, mas fica só observando as atitudes do marido. Daniel olha para o filho como jamais havia olhado antes: de maneira terna e pura. Ele, então, vai até o berço e pega Jeferson nos braços. Natasha o interpela dizendo:
      Daniel! Você vai acordar o garoto!
Jeferson começa a chorar com muito esgano. E, logo, Natasha diz:
      Olha aí, Daniel!
Ele responde com singelo sorriso nos lábios:
      Que importância tem um choro? Isto é sinal que ele tem vida e já contesta, desde pequeno, quando o perturbam.
      Você vai a um consultório pra resolver as tuas paranóias e volta mais maluco do que quando saiu! Você precisa é de um psiquiatra, isso sim!
Terminando de dizer isso, Natasha vira-se e vai para o piso inferior. Daniel continua no quarto fazendo brincadeiras para Jeferson parar de chorar.
      Calma, nenê! É o pai que tá aqui. É o pai...
Mais tarde, Daniel desce para a cozinha, onde está sua esposa. Ele senta-se no banco que fica em frente ao balcão. Natasha questiona-o a respeito do acontecido:
      Por que esse carinho repentino hoje?
      Não posso ser carinhoso com a minha família?
      Não, não é isso. É que depois da tal regressão, você obteve essa mudança. É estranho.
      Bom, na regressão eu me senti tão só. Era como se nada existisse, como se não existisse família. Só existia aquela realidade paralela, cheia de conflitos. Enfim, acho que eu deveria mostrar mais que amo vocês dois...
      Mas, Daniel, o Jeferson não tem um ano ainda. Não se preocupe, meu amor!
      É, eu também pensava que uma criança dessa idade não poderia compreender. Inclusive, eu achava que a vida só marcasse o seu tempo após os oito anos; mas hoje vejo que, até mesmo no útero, o feto está recebendo as mensagens que a mãe e o pai emitem. Senão, que sentido teriam os oito anos anteriores? Não tem lógica.
      É, você voltou com umas lógicas muito estranhas. A propósito, o que descobriu a respeito dos seus sonhos com aquela moça do “além”?
      Nada. Vou ter de fazer umas sessões para encaixar as peças.
      Como assim? Você não viu tudo que tinha de ver?
      Não, só vi alguns flashes de minha memória, que não consigo associar a nada que já tenha visto.
      Ué, talvez você realmente não tenha visto as tais imagens. Talvez seja, sei lá, uma alucinação...
      Não, não. Eu tenho uma estranha sensação de que as vi em alguma parte de minha vida.
      Olha, não sei mais nada! Vou preparar o jantar. Você vai comer em casa hoje?
      Não estou com fome mas, vou “beliscar” alguma coisinha.

Os Amigos


A tarde está indo embora em seu crepúsculo e, a noite se aproxima com suas estrelas e lua, dignas das noites de inverno.
Daniel e Natasha contemplam o pôr-do-sol como dois amantes apaixonados, abraçados e beijando-se com ternura. Então, Natasha decide quebrar o silêncio:
      Dani, a Márcia me ligou hoje pra conversar e, eu a convidei para jantar aqui em casa.
      O Jonathan vai vir também?
      Ah, não perguntei. Mas, acredito que sim. Espero que você não esteja muito cansado para recebê-los.
      Não. Até que, depois da terapia, eu voltei mais relaxado. É melhor, mesmo, eu me distrair.
Mais tarde, chegam Márcia e Jonathan para o jantar. Ambos na faixa de uns 27 anos, um casal amistoso e simpático.
Uma conversa descontraída e informal à mesa, um atípico momento de descontração na vida de Daniel.
As mulheres, após o jantar, levantam-se da mesa e vão buscar a sobremesa. Enquanto isso, Jonathan resolve questionar sobre a sessão de regressão de memória de Daniel:
      E aí, Daniel? Como foi a tal terapia de regressão?
      Foi bem interessante. Realmente, uma experiência pela qual eu não tinha passado ainda.
      Tá, mas o que você viu? Chegou a ver alguma coisa interessante? Você viu alguma vida passada?
      É... Não tenho bem certeza do que vi, mas, se o que vi aconteceu realmente, então, com certeza, era uma outra encarnação.
Jonathan parece muito entusiasmado com o assunto, que até deixa seu Chateu de lado, escutando tudo com a atenção de um cirurgião e a curiosidade de uma criança.
      Tá, mas me conta o que você viu. – Pede Jonathan.
      Ah, não dá para explicar assim.
      Sim, mas diz só o que é que você viu. Talvez a gente tire umas conclusões juntos.
      Ah, eu vi uma casa muito antiga, mas dentro dela, eu só vi a sala de estar, um corredor, uma escadaria e um quarto...
Enquanto isso, a conversa de Natasha e Márcia tomava outro rumo. Há uma preocupação com a vida atual de Daniel.
      Como foi a sessão de Daniel? – Pergunta Márcia.
      Eu não sei. Ele não falou muita coisa a respeito. Pra falar bem a verdade, ele não falou muita coisa com nexo desde que ele veio dessa regressão.
      Mas, você acha que a terapia está fazendo bem pra ele?
      Eu não sei mais nada. Não sei nem se ele foi mesmo nesta tal de regressão.
      Como assim?
      Ah, não sei se ele foi pra terapia ou se ele arrumou uma outra mulher.
      Não. Nisto eu realmente não acredito. Não entendo... Por que isso agora, Natasha?
      Não sei. Fazia meses que ele andava pra baixo e, agora, sem mais nem menos, ele sai pra uma consulta e volta todo eufórico. É meio estranho, não acha?
      Ué, talvez ele achou as respostas para as crises dele. Este é um bom motivo pra se estar feliz...
      Ele disse que não achou resposta alguma...
      Calma, talvez ele só não tenha te falado, mas ele teve as respostas que procurava...
      E por que ele as esconderia da própria esposa?
      Ah, sei lá! Talvez porque seja uma coisa muito íntima...
      Tão íntima que a esposa não pode saber? Ah! “Qualé”?
      Talvez ele não saiba direito o que viu. Talvez ele tenha visto só o começo do fim de seus problemas, uma luz no fim do túnel...
      É, mas pra quem dizia que uma luz no fim do túnel era, provavelmente, um trem vindo contra ele, até que ele está bem otimista!
      Olha, Natasha, você sempre reclamava do pessimismo dele, agora que ele melhorou, você fica aí cheia de ciúmes. Acho que quem tá precisando de tratamento é você.
Na sala de jantar, Daniel continua falando de sua nova experiência, com relação à regressão, quando chegam Márcia e Natasha com a sobremesa. Márcia, com um ar brincalhão, chega com a travessa do pudim nas mãos e diz:
      E aí, rapazes? Qual é a pauta da discussão de hoje?
Jonathan, muito bem-humorado, responde:
      Não, hoje não entramos em nenhuma discussão ideológica. O Daniel parece estar de bem com a vida hoje.
      E qual seria o grande motivo de tanta felicidade hoje, Dani? – Pergunta Márcia, com um ar de curiosidade.
      Não sei ao certo ainda. Mas, sei que depois da terapia comecei a me sentir outra pessoa. Agora estou cheio de novas expectativas. Estou deixando de ser tão amargo quanto eu era antes porque comecei a conhecer um pouco sobre mim mesmo e, agora, tenho a certeza de que vou descobrir tudo sobre o meu passado e vou, com isso, ter uma nova visão da minha vida. Espero encontrar as respostas que tanto almejo. – Diz Daniel, com entusiasmo.
      É, eu só espero que depois disso, você não largue a sua família pra salvar baleias. – Diz Márcia.
      Não, isto tudo só serviu pra eu ver o quanto eu amo a minha família.


O Sonho

Após os amigos, Márcia e Jonathan, irem embora, Daniel e Natasha vão assistir a um filme na televisão. Daniel acaba adormecendo pela monotonia do filme. Natasha, após terminar o filme, chama Daniel para irem para a cama.
Mais tarde, em torno das 2h e 30min da madrugada, Daniel acorda banhado em suor. Levanta-se da cama nervoso, aflito com o pesadelo. Ele sai do quarto e desce as escadas em direção à sala de estar, percorre rapidamente a sala e chega à cozinha. Nervoso, abre o refrigerador e pega uma garrafa com água gelada para saciar o seu calor e a sua sede, quando toca o telefone da cozinha. Ele fica estático. O coração, que já estava começando a desacelerar, entra em um ritmo frenético novamente. Daniel caminha apreensivo até o telefone fixado na parede. Ele olha fixamente para o aparelho, aterrorizado. O telefone toca pela sexta vez e, então, Daniel o atende:
      Alô!
Do outro lado da linha uma voz aterradora:
      Abra os olhos, Daniel!
      Quem está falando?
A pessoa do outro lado da linha silencia-se por um segundo e desliga o telefone. Daniel preocupa-se e entra em pânico. Ele senta-se no banco do balcão e leva as mãos ao rosto. Nisso, uma doce voz vem de suas costas:
      Olá, Daniel!
Ele fica calmo e tranqüilo, pois já sabe de quem é esta doce voz. É da mulher de seus sonhos. Ele, então, vira-se para vê-la mas, se depara com uma imagem que o faz entrar em choque. Ele a vê completamente desfigurada... Ela está com um buraco no lado esquerdo do crânio, como se tivesse levado um tiro certeiro, à queima-roupa. Ele apavora-se e, com um grito aterrador, acorda. Era mais um de seus terríveis pesadelos. Banhado em suor, coração disparado e um nó na garganta que parece sufocar, ele cai em prantos. Sua esposa acorda com o seu grito desesperado e o vê chorando como uma criança. Apavorada, sem saber o que fazer, ela diz:
      Dani, o que houve?
      Mais um de meus pesadelos. Mas este foi o pior de todos. – Diz Daniel, atônito.
      O que você viu desta vez?
      Lembra da mulher dos meus sonhos?
      Sim, claro! Você vive falando nela. Como eu poderia esquecê-la?
      Eu acabo de sonhar com ela. Mas esta foi a primeira vez que a vi dessa forma. Ela estava completamente desfigurada. Ela, aparentemente, levou um tiro no rosto...
Após contar tudo a respeito de seu pesadelo, ele começa a chorar sem parar. Natasha tenta acalmá-lo.
      Calma, meu amor! Já passou. Vai ficar tudo bem, agora. Isso tudo vai acabar quando terminarem as sessões de psicanálise.
Natasha continua a falar, mas sua voz começa a se distorcer e, por fim, ela diz, em um tom aterrorizante:
      Abra os olhos, meu amor!
Daniel tenta gritar mas, desta vez, suas cordas vocais não emitem som algum para que sua mulher acorde. Ele encontra-se desesperado e, o suor escorre pelo seu rosto em pânico. Com os braços abertos, tentando buscar forças de dentro de sua alma, acorda-se com um grito apavorante. Com as mãos no rosto, ele não consegue sequer emitir um breve sussurro. Sua esposa acorda-se com o grito e tenta acalmá-lo.
      O que houve? Acalme-se. Respire fundo...
A voz de Natasha vai se transformando. Ela começa a falar mansamente, mas a voz adquire um tom mais grave. A voz que toma conta da de Natasha é a do hipnotizador:
      ...Sinta a sua respiração. Deixe que ela invada a sua alma e inunde seus pensamentos. Agora você verá luzes brilhantes que o irão levar-te...
Agora, a voz distorcida toma conta da do hipnotizador:
      ...Para o inferno! E o farão rastejar como um réptil até mim. Abra os olhos. Retorne, réptil.
Daniel acorda-se com medo que não seja a última vez que irá acordar. Senta-se na cama e começa a rezar e chorar. Sua mulher tenta com todas as forças confortá-lo, o que é quase inútil.


As Notícias

No dia seguinte, às 6h e 30min da manhã, o despertador dispara o alarme. Daniel acorda e o desliga. Olha para o lado e vê que Natasha não se encontra na cama. O coração dispara e o suor frio toma conta do seu rosto. Ele corre para o quarto de Jeferson. O garoto havia desaparecido. Ele desce correndo as escadas, quase cai e, segue correndo pela sala, quando, finalmente, é interpelado por Natasha.
      O que deu em você?
      Você está aí? – Percebe Daniel, ofegante.
      Sim, claro que estou aqui! Eu não sou uma assombração que vem e vai sem deixar vestígio.
      Onde está o Jeferson?
      Está na cozinha, no cadeirão. – Diz Natasha.
      Eu achei que...
      Eu acho que você já está começando a acreditar que os seus pesadelos são uma realidade. Vem tomar café que, daqui a pouco, você tem de ir para o trabalho.
Daniel, agora tranqüilo, encontra-se tomando café na sala de jantar e folhando o jornal. Na capa, a notícia de um assassinato que passa despercebida por ele, quando lhe chama a atenção, o noticiário da TV:
      Nesta manhã foi registrado um brutal assassinato. Um casal de jovens, na faixa dos 22 anos, foi assassinado. Em princípio, com duas facadas nas costas e um corte feito, aparentemente, por um bisturi, na jugular. O que intriga a polícia local é o porquê da extração dos testículos do rapaz e dos ovários da moça. A polícia ainda não identificou os dois corpos. Assim que for possível, a polícia garante informar à imprensa os nomes das vítimas. Agora a previsão do tempo com Marieta Carvalho...
Daniel, horrorizado com a notícia, comenta:
      Como é que pode existir gente assim? Um psicopata desses tem de tomar choque diariamente, pelo amor de Deus!
      É, mas não adianta. Nós nunca vamos entender o que se passa na cabeça de um maníaco desses. – Conclui Natasha.
Daniel termina logo seu café, levanta-se e vai em direção ao seu filho. Beija-o e se dirige para a porta da frente da casa, quando a sua mulher o interpela, dizendo:
      Tá, aquele papo de ontem, que teve uma nova visão da vida, iria demonstrar mais que amava a família... Tudo balela. Cadê o meu beijo de despedida?
Daniel retorna dando-lhe um beijo e, se despede. No carro, liga o rádio e parte para o seu serviço diário. No rádio está tocando uma música antiga chamada Don’t Let Me Down, dos Beatles; uma música bem de acordo com o momento pelo qual ele está passando e a crise nostálgica pela qual atravessa o mundo atualmente.
Daniel encontra-se distraído, pensando na vida e seu real sentido. Por que procurar tantas respostas? Por que não viver como os animais, que apenas fazem o que têm de fazer e não questionam nada?
Enquanto ele pensa na vida, a música do rádio é interrompida para transmitir mais um noticiário a respeito do assassinato que ele vira na TV.
      Notícia urgente! A polícia diz ter encontrado junto às vítimas do assassinato desta manhã, um CD de uma banda de Trash Metal, chamada Tragedy. Ainda não foi descoberta a ligação entre o assassino, as vítimas e o CD. Mais notícias, a qualquer momento, na sua Rádio 73.3 FM.


O Trabalho Atual

Daniel chega ao enorme prédio de escritórios de arquitetura e engenharia civil, o Explore Designing. Entrando na enorme sala de projetos do oitavo andar, ele é recebido por Marta, uma das inúmeras funcionárias do escritório.
      Bom dia, chefe! – Diz Marta, com um lindo sorriso.
      Bom dia, Marta! Como vai o seu filho, Henrique? Melhorou da febre? – Pergunta Daniel, com um ar bastante amistoso.
      Sim, senhor. A febre cedeu, graças a Deus!
Daniel sorri com um certo sarcasmo no olhar e, em voz extremamente baixa, diz:
      Graças a Deus é? O salário que eu te pago não vale nada, crente do inferno!
Daniel passa por Pedro, um dos mais renomados projetistas e, não resiste à pergunta.
      Como vai o andamento do projeto do shopping?
      O Artur me disse que só faltam alguns detalhes para terminá-lo. – Diz Pedro entusiasmado.
      Que detalhes que faltam? – Pergunta Daniel, com um tom de ironia evidente. – Vindo do Artur, no mínimo, está faltando só começar. – Conclui Daniel, sarcástico.
Daniel dirige-se a sua sala para começar mais uma jornada de trabalho. Sentando-se em sua confortável cadeira giratória, que mais parece uma poltrona giratória, ele verifica os recados na secretária eletrônica. Enquanto escuta os recados, ele vasculha a caixa de entrada da documentação.
Primeiro recado:
      Senhor Daniel, aqui é o coordenador da JM Express. Gostaria de conversar com o senhor a respeito da nova rede de escritórios da JM Express. Aguardo o seu retorno.
Segundo recado:
      Aqui é a Maristela. Daniel, tu me prometeste entregar o design do edifício em um mês. Já se passaram quinze dias do prazo...
      Vá se foder, vaca! Quem dá prazo aqui, sou eu, não tu. Vaca de presépio! – diz Daniel, irritado e debochado.
      ...E se tu não me entregares o projeto em uma semana, eu vou passar o projeto para outra empresa mais competente.
      Passa, vaca! Ora, se eu vou me preocupar com tal projetinho. Só se eu estivesse na merda. – Diz Daniel com total desdém.
Enquanto Daniel confere a correspondência, o terceiro recado inicia-se. Uma voz distorcida diz:
      Olhe a última carta da sua correspondência pessoal.
Daniel vasculha as cartas, apavorado com a voz que acabara de escutar. Ele tem medo de saber o que está escrito na tal carta, mas a procura mesmo assim. Encontrada a referida carta, que está em um envelope em branco com apenas a marca de um pentagrama feito com cera vermelha para o seu fechamento, ele a segura trêmulo e muito nervoso. Ao abrir, apenas uma mensagem:
Abra os olhos, Daniel!”, escrita com uma colagem feita de letras retiradas de algum jornal.
Daniel, apavorado, chama sua secretária pelo ramal telefônico. Ela vem, às pressas, para saber o que está acontecendo. Logo que entra na sala, Daniel começa a interrogá-la:
      Alguém entrou na minha sala enquanto eu estava fora?
      Não, ninguém entrou aqui a manhã toda. – Responde a secretária, sem entender o porquê da pergunta.
      Quando você pegou a correspondência, você trouxe esta carta anônima? – Pergunta Daniel, aflito.
      Não. Na correspondência, que eu trouxe ontem à noite, não tinha nenhuma carta anônima. – Explica a secretária, sem entender nada.
      Esta correspondência não é a de hoje?
      Não, a de hoje eu estou organizando para passá-la ao senhor. – Responde a secretária, intrigada.
Daniel sai desesperado. Anda rápido pelo corredor do escritório e dirige-se ao elevador. À chegada do elevador, ele entra. Lá dentro, ele se encontra em total impaciência. Logo chegando ao 15° andar, onde encontra-se o setor de monitoração de segurança, o elevador abre as portas e, Daniel sai às pressas para a sala de monitoração. Entrando na sala, ele dirige-se  a um dos seguranças de dia.
      Onde está a gravação desta última noite?
      Está ali na terceira prateleira, na parte de entrada. Deixe, que eu pego para o senhor.
O segurança vai até a tal prateleira e pega a referida fita de vídeo. Ele a traz e coloca-a no reprodutor de vídeo.
Passam-se alguns minutos e nada é encontrado. O segurança, que localizou a fita, o questiona:
      O que, exatamente, o senhor está procurando?
      Estou procurando alguém que tenha entrado na minha sala ontem à noite e... Espere aí! Volte a fita. – Diz Daniel.
      Há um homem de preto no hall de entrada. Deixe eu dar um zoom nele. – Diz o segurança.
      Porra! Não dá pra ver o rosto dele. – Diz Daniel, cada vez mais angustiado.
Na imagem do vídeo, que eles assistem com a atenção de uma partida de final de Copa do Mundo, o homem de preto entra em um dos elevadores e, segue em direção ao escritório de Daniel. Entra, olhando cada detalhe da sala de Daniel. Chega em frente à mesa e, coloca embaixo da correspondência, a suposta carta anônima.
      Agora, ele está bem de frente pra câmera, dá um zoom nele. – Diz Daniel.
O segurança faz o que Daniel manda, mas é inútil, pois o elemento de preto encontra-se com o rosto coberto por uma máscara de acrílico.
      Filho da puta! Como foi que ele conseguiu passar pelos alarmes de segurança? E onde estava o segurança da noite passada, que não estava prestando atenção no monitor? – Diz Daniel, indignado. – Vou chamar a polícia pra ver esta fita. – Conclui Daniel.
Daniel chama a polícia, que leva mais de duas horas para chegar ao local do crime. Daniel está impaciente e xingando a polícia pela demora típica. Quando a polícia chega, Daniel vai logo reclamando:
      Pôxa! Vocês demoraram mais de duas horas pra chegar aqui, pelo amor de Deus!
      Contrate uma firma particular, se o senhor quer exclusividade na solução de seus problemas... – Diz o policial antipático, com ar irônico.
O policial, vendo que Daniel já possui segurança privada, ironiza novamente:
      Ops! Estou vendo que o senhor já contratou os préstimos fantásticos de uma empresa privada. Eles já devem até ter descoberto quem era a mãe do “Badanha”.
      Você pode guardar a sua ironia pra você. – Diz Daniel, revoltado com o policial irônico.
      Tá, e o que é que tem nesta tal fita? Pergunta o policial, não muito gostoso com o que disse Daniel.
      Foi por isso que eu chamei a polícia para ver a fita. Se eu fosse só explicar o que eu vi, teria feito por telefone mesmo. – Retruca Daniel.
      Ah! Agora entendi porque não pode contar o final, é um filme de suspense. Por que não explicou logo? – Debocha o policial.
Após assistirem todas as cenas que interessavam à polícia, o policial começa o interrogatório:
      O senhor suspeita de alguém que poderia fazer isto?
      Não, não tenho nem idéia de quem poderia querer me ameaçar. – Diz Daniel, colaborando com todas as perguntas que lhe são feitas.
      Eu digo, qualquer um que sirva de suspeito. Este elemento, provavelmente, foi mandado por alguém. Teria alguém, com uma boa posição social, que poderia tê-lo mandado? Tipo, algum concorrente?
      Não, não tenho ninguém que eu acredite que tenha feito ou mandado fazer este tipo de coisa. Não sei mesmo.
      Bom, nesse caso, eu não posso ajudar em nada. – Diz o policial, já se despedindo, quando Daniel o impede:
      Espere aí! Um cara invade o meu prédio e a polícia não pode me ajudar? Eu pago mil impostos nesta merda de edifício e eu não posso contar com o apoio da polícia? Pra quem eu vou pedir ajuda, então? – Pergunta Daniel, aos gritos, na sala de monitoração.
      Peça pro Batman. – Responde o policial, sarcástico, que após dizer isto, deixa Daniel falando sozinho.
      Esta é a consideração que a polícia tem pelos contribuintes que pagam o seu salário? – Apela Daniel.
      Olha aqui, cara! Eu não estou me negando a investigar o caso. O problema é que você não tem nenhum suspeito. E, além do mais, não foi feita nenhuma ameaça. Só diz na carta para você abrir os olhos. Pode muito bem ter sido o seu oftalmologista que te mandou a carta. – Conclui o mal-humorado policial.
Daniel, indignado com o que houve, desabafa com os seguranças do prédio, que se encontram na sala de monitoração:
        Esses filhos da puta só prestam pra sugar o dinheiro do governo, que por sua vez, rouba o nosso dinheiro. Não passam, todos, de parasitas de porcos. – Daniel demonstra toda a sua indignação com o sistema.


A Casa Atual

Em sua casa, guardando muita raiva com o ocorrido, Daniel comenta o fato com Natasha, que tenta acalmá-lo:
        Calma! Não adianta ficar desse jeito. Ficando assim, o máximo que você vai conseguir é um câncer ou uma úlcera nervosa.
        É, mas agora o problema não é a polícia, que não me deu atenção. O problema é esse cara que invadiu o meu escritório, passando por toda a segurança do prédio e não disparou um alarme. – Diz Daniel, intrigado com tudo.
        É, o estranho disso tudo é que esse cara se arriscou tanto só pra colocar uma carta onde se lia: “Abra os olhos”. Não consigo entender o porquê disso. – Comenta Natasha tentando acompanhar o assunto.
        Talvez ele tenha feito isso tudo para me mostrar que pode me pegar a hora que ele quiser. Ou, simplesmente, esse cara é contratado por alguém. O que torna muito mais difícil de pegar o mandante... Sei lá! – Analisa Daniel.
        Bom, eu não sei mais o que dizer pra te acalmar. Eu preciso ficar um pouco sozinha. Eu vou pra beira da piscina, pra refletir.
Natasha levanta-se do sofá da sala e vai em direção ao pátio. Senta-se em uma cadeira à beira da piscina e fica observando o reflexo da lua sobre a água. Daniel resolve ir até lá pra conversar com Natasha. Ele senta-se ao seu lado e não diz absolutamente nada. Natasha, então, resolve conversar:
        Há tempos que eu não parava para observar a lua. Ela está absolutamente bela hoje.
Daniel, pensativo, somente concorda com a cabeça. Natasha, então, muda de assunto:
        Acho que nós precisamos conversar sobre nossas vidas. – Diz Natasha, com um olhar de solidão.
        E há alguma coisa errada? – Pergunta Daniel, quase certo da resposta.
        Há, sim. Você anda muito estranho desde que começou aquela história de regressão de memória. – Responde Natasha, já irritada.
        O que você quer? Quer que eu fique o resto da vida com aqueles malditos pesadelos?
        Não. Não é isso! É que você só tem tempo pra essa sua obsessão. Você não tem mais tempo para uma palavra de carinho, pra um abraço apertado, nem sequer um momento de atenção para o meu dia. Você não tem tempo pra nada que seja do interesse do nosso casamento. Só fica dizendo que ama a sua família pra todo mundo, mas demonstrar que é bom, nada. Você acha que eu não sinto falta dos teus carinhos? Nosso casamento é solidão a dois! Pelo amor de Deus, Daniel! Cai na real, uma vez na vida! – Diz Natasha aos prantos.
        Eu sei que você anda sentindo minha falta ultimamente, mas tenho estado muito ocupado com o meu trabalho, com os meus pesadelos e, agora, com essa invasão no meu escritório. Eu tenho estado mais preocupado ainda com a...
        Em outras palavras, tem estado muito ocupado para mim. Eu te entendo.
        Entende mesmo? – Pergunta Daniel, surpreso com a compreensão de Natasha, pois ele não conseguiria ser tão compreensivo com ela.
        Sim, entendo. Entendo que na vida, nós temos muitas coisas a serem feitas, muitos projetos que temos de realizar, muitas dúvidas que temos de esclarecer. Então, temos de deixar algumas coisas pequenas pra trás. Temos que pisar nos sentimentos idiotas das pessoas que estão ao nosso lado para atingir os grandes objetivos. Então, fique com os seus pesadelos e pare de transformar a minha vida num pesadelo!
Natasha levanta-se chorando e vai para dentro da casa. Daniel permanece sentado, pensativo, olhando o reflexo da lua sobre a água da piscina. Nesse momento, ele começa a crer que, talvez, nunca conseguirá as respostas que tanto almeja e, que, talvez esteja jogando o seu casamento fora. Chega a pensar, em um momento de puro egoísmo, que, se ela pensa assim, é porque ela não o ama de verdade.


O Seqüestro

Daniel resolve sair para dar uma volta de carro. Sem rumo, sem companhia, sem nada pra fazer, a não ser rodar sem parar. Ele contempla as coisas que nunca viu, mas que sempre estiveram lá. O dia a dia nos faz correr tanto com as coisas do homem, que esquecemos o quanto são belas as coisas de Deus.
A lua está encantadora e graciosamente bela esta noite. Há um ar meio mórbido. As nuvens parecem fazer questão de deixar a noite com um ar sinistro, algo como nos livros de Alfred Hitchkok. Assistindo à dança das nuvens, que sempre estiveram ali mas nunca reparara, Daniel perde-se em sua mente confusa.
Em uma viagem contempladora, Daniel distrai-se e perde-se na direção. Ele consegue, contudo, retomar o controle do veículo, continuando na estrada. Quando ele pensa que está tudo sob controle, um animal, que ele não conseguiu sequer identificar, cruza à sua frente, trafegando desavisado e, no intuito de não atropelá-lo, Daniel desvia, perdendo totalmente o controle do carro. O carro, desgovernado, vai de encontro à barreira de proteção, com o impacto, quebra-a e, se lança para baixo da auto-estrada, parando em um barranco de terra. Daniel encontra-se dentro do veículo, com o rosto levemente ferido pela batida contra a direção e uma forte dor em seu braço esquerdo.
Bastante tonto pelo acidente sofrido, Daniel tenta abrir a porta do carro, mas esta está emperrada. Ele a força mais um pouco e ela se abre. Ele sai devagar, completamente desorientado. Ele anda em direção à auto-estrada para pedir socorro. Não há nenhum carro na estrada. Está deserta e não há para onde correr. Ele está a quilômetros da cidade de origem e, também, da próxima cidade.
Um carro vem se aproximando. Daniel faz sinal para o veículo, que vem em alta velocidade e, não faz nem menção de parar. Afinal, quem pararia numa estrada deserta naquela hora da noite? Como ter certeza que não seria uma emboscada?
Vem aproximando-se outro carro, mas como o primeiro, não parece que irá parar. Daniel, em pânico, percebe que ele não irá parar de fato e, então, posiciona-se no meio da auto-estrada. O carro, mesmo assim, não reduz a velocidade, indo para cima de Daniel, que obriga-se a pular pra fora da estrada.
Passam-se quarenta e três minutos desde que o primeiro veículo passou e, Daniel não conseguiu nenhuma ajuda. Ele encontra-se sem forças para andar. Nesta hora, ele questiona-se sobre Deus. Será que Ele realmente existe?
Ele, então, vê um farol aproximando-se. O veículo parece estar reduzindo a velocidade. O carro reduz seu ritmo até parar. A pessoa que está dentro do carro desce, às pressas, para ajudá-lo. Segurando-o nos braços e, com isso, sujando-se de sangue, o sujeito diz:
        Meu jovem, o que aconteceu?
Sem forças para muita conversa, Daniel responde:
        Me acidentei com o meu carro.
        Onde está o seu carro? – Pergunta o “Bom Samaritano”.
        Está ali no barranco mais baixo da estrada.
        Eu vou te levar a um hospital pra ver se não houve nenhum problema mais grave.
O “Bom Samaritano” deve ter uma idade aproximada aos 60 anos e está vestindo um terno, já há tempos fora da moda, acompanhado de uma velha boina , que o deixa mais cafona ainda.
O velho coloca Daniel dentro do carro e segue pela auto-estrada à procura de um hospital. O velho começa a questioná-lo a respeito do acidente:
        Como aconteceu o acidente? Você dormiu na direção?
        Não. Eu estava rodando na estrada para me distrair um pouco, o senhor sabe, tentando esfriar a cabeça...
        Parece que se distraiu demais, não é verdade? – Diz o velho com um bondoso sorriso nos lábios.
        É verdade. Eu não deveria me distrair tanto assim.
        Mas, então você saiu da estrada por distração?
        Não, um animal cruzou na frente do carro e, para não matá-lo, eu puxei a direção rápido demais e, com isso, o carro não segurou na estrada.
O velho começa a ficar com o pé meio pesado no acelerador. Aos poucos vai aumentando a velocidade do veículo. As feições do “Bom Samaritano” começam a mudar. Não são mais feições de um pobre velho tentando ajudar. Daniel está apavorado com a mudança do velho e com a excessiva velocidade, que resolve questioná-lo a respeito:
        O senhor não está um pouco rápido demais?
Com uma voz sarcástica, o velho responde:
        Só quero deixá-lo logo no hospital para cuidarem dos seus ferimentos, Daniel.
        Como o senhor sabe o meu nome? – Pergunta Daniel, sem entender o que está acontecendo.
        Você me disse quando eu o encontrei na estrada.
        Não, eu não disse o meu nome em nenhum momento. Eu tenho certeza disso. – Daniel não consegue compreender nada do que está acontecendo.
O tom de voz do velho fica cada vez mais agressivo:
        Meu jovem, você bateu a cabeça, não se lembra de muita coisa.
Daniel ainda tenta argumentar:
        É claro que me lembro, eu...
Com um tom ainda mais agressivo, o velho diz:
        Meu rapaz, você não está em posição de entender nada. Você não consegue sequer entender a sua vida, vai querer entender o que está acontecendo...
Daniel tenta desesperadamente abrir a porta do carro para lançar-se para fora do veículo, mas ela está travada. Desesperado, Daniel grita:
        Pelo amor de Deus, quem é você?
        Quem sou eu não é da sua conta.
        Como não é da minha conta? Você está me seqüestrando e não é da minha conta?
        Você realmente quer saber quem sou eu?
Com esta pergunta, o velho acelera ainda mais, chegando a uma velocidade superior a 170 Km/h. Daniel, apavorado, diz:
        Pelo amor de Deus, diminua a velocidade! Você vai nos matar!
        Pelo amor de quem? Não use o nome do Criador para seus medos terrenos. Você não é digno do amor Dele, quanto mais de Seu perdão, jovem.
        Você é um psicopata. – Diz Daniel.
        Não, sou apenas o seu passado vindo lhe cobrar. Dívidas são dívidas e devem ser pagas. – Diz o velho com um ar maquiavélico.
        Que dívidas? Eu nunca te vi antes.
Com uma voz aterrorizante, o velho olha bem no fundo dos olhos de Daniel, que treme dos pés à cabeça e, diz:
        “Abra os olhos, Daniel”. Vasculhe em sua mente o seu passado podre e decadente.
Daniel está cada vez mais apavorado com aquela situação. O velho começa a reduzir a velocidade, entra em uma estrada de chão batido e vai embora, mato a dentro.
Agora, já pode-se ver uma luz, com uma pequena casa no meio do mato. O velho dirige em direção a velha casa e pára em frente à porta da garagem. A porta abre-se e ele entra com o carro. Desliga o motor, impunha uma pistola Taurus 380 e aponta para a cabeça de Daniel, dizendo:
        Desça do carro, rapaz.
Daniel desce do carro, sem fazer nenhum movimento brusco, para que o velho não pense que ele quer reagir, apesar de, no momento, ser o seu maior desejo. Dirigem-se até uma porta que dá acesso a casa.
Adentrando a velha casa, Daniel observa um ambiente pitoresco: uma velha casa com um ar frio e sinistro, um lugar que arrepiava-lhe até a alma.
O velho com a 380 perto da coluna de Daniel, diz:
        Não se preocupe, não vou fazer-te mal algum. Pelo menos, não vou fazer nem metade do que tu fizeste a mim... Por enquanto, é claro.
Daniel permanece imparcial às ameaças. O velho leva-o para o porão da velha casa, onde a iluminação fica a cargo de um antigo lampião à querosene, manda-o sentar em uma cadeira antiga, perto do que parece ser uma fornalha. Daniel o obedece. O velho acende uma, das centenas de velas que existem no local e dá início a um ritual com uma oração macabra para cada vela acesa. Daniel nota a tamanha distração do velho e aproveita-se desse momento para executar a sua escapada. Ele apodera-se de um candelabro, o qual ele pega com extrema raiva, e parte para cima do velho. Começa, então, uma luta por liberdade. Daniel consegue golpeá-lo uma vez com o candelabro e, o velho, por sua vez, revida com um “coronhaço” que o faz perder a sua Taurus. Os dois vão ao encontro da arma, mas nenhum consegue pegá-la. Daniel puxa-o pelo pescoço e, com isso, rompe a pele do mesmo e do rosto. Daniel olha aquilo em pânico, pois aquele velho rosto não passava de uma máscara. Daniel tenta arrancar desesperadamente a máscara do suposto velho, mas não consegue. Num golpe traiçoeiro, Daniel é acertado em sua nuca, o que o faz cair desmaiado no chão.
Daniel acorda horas depois ainda no mesmo porão. No momento em questão, ele encontra-se deitado de barriga para cima com braços e pernas abertos, porém, amarrados por correntes fixadas no chão de concreto. Ele está bem no centro de um enorme pentagrama desenhado no chão com uma tinta que aparenta ser sangue. Na parede, inúmeras fotos demoníacas, provavelmente retiradas de livros satanistas.
Daniel observa tudo a sua volta com total atenção para descobrir quem seria esse suposto velho. Ele busca uma remota possibilidade de associar algo deste tenebroso lugar ao velho, mas o esforço é inútil. Ele tenta forçar as correntes, mas é tudo em vão. Ele experimenta neste momento, toda a sua vulnerabilidade; sente-se impotente com a real força que contém esta palavra. Daniel transpira sem parar, com um nó na garganta que não consegue desfazer e uma vontade imensa de desaparecer. Talvez ele realmente desapareça, da pior maneira que há.
A porta no alto das escadas do velho porão se abre. Não se pode ver quem as desce, pois a luz que está atrás da pessoa escurece a imagem. O homem que desce as escadas está vestindo um manto preto com capuz e, também, está com um pentagrama na mão esquerda e um pote, feito de barro, com um símbolo tão estranho quanto desconhecido. O homem começa a cantar, em latim, uma canção estranha e, ajoelha-se em frente a cada fotografia macabra por que passa. Quando passa pela última fotografia, ele levanta-se e, com um grito em latim, encerra a canção. Então, começa uma música bem baixa, que vai aumentando o volume. A música é When the Silence Cries, da banda de Opera Metal, Trial of Tears. O som fica cada vez mais alto, quase ensurdecedor. O homem começa a jogar sangue em Daniel como se fosse água benta. Terminada a música, o homem aproxima-se de Daniel, abre os grilhões dos pés e das mãos e, retira-se dizendo:
        Vá com Deus!
Daniel levanta-se lentamente, sem entender direito o que está acontecendo, mas está mais preocupado em fugir dali do que entender algo. Ele sobe as escadas apressado, vê que a porta está aberta e teme o que possa acontecer. “Está tudo fácil demais pra ser verdade, algo está errado”, pensa Daniel.
Daniel consegue sair da casa e, em nenhum momento é impedido. Ele encontra-se no pátio da casa. O pátio está deserto, não há nada que o impeça de fugir. Ele corre pela trilha, que parece ser o único caminho de acesso desta casa. A auto-estrada parece estar mais longe do que imaginava. Após correr por cerca de 30 minutos, ele finalmente chega à auto-estrada. Como não há nenhum carro trafegando, Daniel, então, resolve caminhar em direção a sua cidade. Um vento frio corta seu rosto. Não há luz alguma. Somente a lua ilumina a estrada.
Daniel, exausto, já não agüenta mais caminhar. Seus pés estão cheios de bolhas e sua cabeça não consegue pensar em outra coisa a não ser chegar em sua confortável casa. Daniel olha pra trás e um farol aponta ao longe. Ele continua caminhando, pois já sabe que o carro não vai parar. E, além do mais, ele não quer arriscar um outro psicopata. O carro vem diminuindo a velocidade, Daniel apavora-se e tenta correr, mas nas condições em que ele se encontra, mal consegue acelerar um pouco mais do que estava caminhando. O carro para ao lado de Daniel e, o sujeito abre o vidro, dizendo:
        O que aconteceu, Daniel?
Daniel está ofegante demais para falar. Jonathan desce do carro para ver como está Daniel, tenta conversar, mas ele está em choque e, por isso, não consegue responder nada. Jonathan o conduz para dentro do carro, colocando-o no banco do carona da frente. Jonathan parte em direção ao hospital da cidade. Daniel ainda está ofegante, sem conseguir dizer uma palavra. De repente, ele tem um mal súbito e desmaia.
Algumas horas depois, Daniel acorda e se vê deitado em um leito hospitalar. Jonathan o vê acordar e logo diz:
        Como você está se sentindo, Daniel?
Meio “grogue” com as palavras, Daniel responde:
        Acho que estou bem. Não sei ao certo.
Daniel faz uma pausa na conversa, olha para os lados e pergunta:
        Onde estou?
        Está no “Hospital Menino Deus”. – Responde Jonathan
        O que faço aqui?
        Você não lembra do que aconteceu?
        Lembro que eu estava em casa e a Natasha entrou numa paranóia de que eu não a amava e, que só tinha tempo para os meus problemas. Aí, para desestressar, eu peguei o carro para distrair a minha cabeça. Estava andando pela estrada, pensando na vida, quando atravessou um animal na minha frente, que eu sequer consegui identificar e, por instinto, eu desviei, mas perdi o controle da direção e desci o barranco. Aí, eu saí de dentro do carro pra pedir ajuda. Fui até a auto-estrada e passou uns dois carros, mas eles não pararam. A estrada estava muito deserta, a primeira carona que me oferecessem, eu aceitaria. Aí, foi quando parou um carro. Tinha um velho dentro que se propôs a me ajudar. Só que o velho começou a correr demais e eu pedi para ele reduzir e ele começou com um “papo” estranho de que ele estava vindo cobrar dívidas, mas eu nunca vi aquele cara antes. E, depois dessa paranóia, ele me levou até uma casa no meio do mato, me botou uma arma na cabeça e me mandou descer. Então, ele me acorrentou no chão que tinha um pentagrama desenhado e, fez um ritual lá, que eu não entendi. Depois apareceu um outro cara encapuzado que abriu as minhas correntes e disse “Vá com Deus”. Ah! Antes de ele me acorrentar, teve uma hora que eu vi que ele estava distraído com uma oração, ele não tinha me acorrentado ainda e, eu parti pra cima dele com um candelabro na mão pra tentar fugir. Acabou que nós brigamos e, numa hora eu o golpeei e rasgou um pedaço da pele dele e, foi aí que eu percebi que ele estava usando uma máscara, como aquelas de cinema que, eles fazem pra envelhecer a pessoa, que é quase impossível de perceber. É, em resumo foi isto que aconteceu. – Conta Daniel para Jonathan, que observa sem dizer uma palavra até então.
        Olha, Daniel, é muito estranha essa sua história. É bem coisa de filme... – Diz Jonathan, com ar de dúvida.
        Você não acredita, né? Você também acha que eu estou enlouquecendo. – Diz Daniel, decepcionado com o amigo.
        Também? Então não sou só eu que penso assim?
        É, Natasha também pensa isso de mim.
        Bom, o que eu penso a respeito disso tudo é o seguinte: digamos que desde que você fez aquela terapia de regressão de memória, você anda um tanto estranho. Mas não entendo por que você inventaria uma história dessas.
        Tá, e o que você pensa, então?
        Sinceramente, acho que você dormiu na direção, saiu fora da estrada e depois teve essas alucinações...
        Ah, então você acha que isso tudo são projeções da minha mente perturbada? – Diz Daniel com uma certa indignação.
        Olha, Daniel, não quero que você me entenda mal, mas é uma história difícil de acreditar e, no seu estado...
Daniel o interrompe dizendo:
        Olha, Jonathan, se você não acredita no que te digo, não importa. O que interessa é que eu sei que não estou ficando louco e que... Espera aí! E você?
        Eu o quê?
        O que você estava fazendo, andando na estrada àquela hora da madrugada? – Pergunta Daniel, com a expressão de quem entendeu tudo.
        Eu estava voltando de uma festa da empresa, nada demais. Bom, se está melhor, eu vou falar com o médico pra ver se ele já pode te dar alta e, vou te levar para casa. – Desconversa Jonathan.


No Outro Dia

Daniel não vai trabalhar no dia seguinte ao seqüestro, pois está abalado psicologicamente. Às 10h da manhã, Jonathan e Márcia vão visitá-lo. Natasha os recebe e convida para entrar. Com um terno sorriso, Natasha pede para que sentem-se nas poltronas da sala de estar, enquanto chama Daniel. Natasha sobe até o quarto do casal para comunicar a chegada de Jonathan e Márcia. Ela entra no quarto, com um ar preocupado, dizendo:
        Daniel, Jonathan e Márcia estão lá em baixo, na sala.
        Diga que não acordei ainda. – Diz Daniel, irritado.
        Meu amor, você não pode evitar o Jonathan pelo resto da sua vida. Ele te ajudou na estrada e, você o agradece dessa forma, meu amor? – diz Natasha, tentando remediar a situação.
        Eu já te falei o que eu penso a respeito dele.
        Isso é loucura! Achar que o teu melhor amigo é um seqüestrador... Como é que ele pode ser esse homem que te seqüestrou?
        Não sei. Só sei que eu o questionei sobre o que ele fazia na estrada àquela hora e, ele desconversou.
        Daniel, nem esse seqüestro relâmpago faz sentido, quanto mais o Jonathan ser o seqüestrador, pelo amor de Deus!
        O que é que não faz sentido, Natasha?
        Já conversamos, ontem, sobre isso.
        Tá, só me diz o que não faz sentido.
        Nada faz sentido, Daniel. Nada faz sentido...
        Só quero saber qual é a tua dúvida, pô!
        Tá, Daniel. Você não acha muito estranho alguém seqüestrar uma pessoa e depois libertá-la sem mais nem menos?
        Eu já te disse que não sei se o cara que me seqüestrou é o mesmo que me libertou. – Diz Daniel, aflito por sua história não convencer ninguém.
        Na verdade, você não sabe nem o que realmente viu.
        Eu sei o que vi.
        Se você tem tanta certeza de que isso tudo não foi  uma alucinação, por que não procura a polícia?
        E dizer o quê? Que eu vivenciei tudo isto, mas não vi o rosto de ninguém? Fala sério!
        É, então, se você não viu rosto algum, é melhor não ficar acusando os teus amigos de seqüestradores.
        É, mas não sou obrigado a continuar amigo deles.
        Bom, não vou mais discutir contigo. Quer ficar dando uma de criança, fica, só me diz o que eu digo a eles.
        Diz o que eu te disse, que eu ainda estou dormindo, que estou me recuperando do trauma sofrido ontem.
        Tá bom, se é o que você quer.
Natasha desce até a sala para se desculpar com os amigos.  Quando Natasha chega à sala, Jonathan levanta-se da poltrona e pergunta:
        Como está o Daniel?
        Ele está bem. Mas ainda não acordou. Acho que ele vai acordar só à tardinha. – Diz Natasha.
        Ah! Compreendo. Bom, se for o caso, a gente volta mais tarde. – Diz Jonathan, entendendo que Daniel não quer recebê-lo. E, tendo dito isto, vira-se para sua mulher e a convida para irem embora. Eles despedem-se e saem.
 Natasha, agora, fica parada e começa a sentir-se mal por ter mentido. Não entende o que está acontecendo com Daniel, não entende o porquê desta reação com as pessoas.


Consultório

Terça-feira à noite.

Daniel chega ao consultório para mais uma sessão de regressão de memória. Ele é recebido pelo hipnotizador, que pede para que ele entre na sala para sua segunda consulta. Entretanto, Daniel está muito agitado para começar a sua regressão. O hipnotizador, vendo a sua aflição, o questiona:
        Como estão os seus pesadelos com a moça?
        É, eu tive mais um pesadelo e este foi bastante forte. Ela havia levado um tiro na cabeça. Eu nunca me senti tão apavorado com um pesadelo, como naquela noite. – Conta Daniel.
O hipnotizador, com um ar interessado, diz:
        Gostaria que você me detalhasse mais o seu pesadelo.
Daniel começa a contar desde o início de seu pesadelo, fase por fase, detalhe por detalhe. O hipnotizador escuta tudo com toda a atenção do mundo. Então, Daniel diz:
          Mas, doutor, não é o sonho que está me preocupando. São as coisas que têm acontecido na minha vida real. Coisas que vivenciei que parecem tiradas de meus pesadelos, ou vidas passadas...
O hipnotizador o interrompe, dizendo:
        Por favor, sempre que for falar de algo, seja específico e detalhista. Qualquer peça é importante no quebra-cabeça da memória subconsciente e consciente.
Daniel, então, começa a contar detalhadamente todas as suas histórias, desde a invasão em seu escritório, até mesmo, suas suspeitas sobre Jonathan no caso do seqüestro. O hipnotizador, novamente, escuta tudo com total atenção. Terminada toda a narrativa, Daniel pergunta ao hipnotizador:
        O que o senhor acha?
        Não costumo dar opiniões assim.
        Assim, como?
        Sem analisar cuidadosamente todo o contexto da história contada. – Conclui o hipnotizador.
        O senhor não acreditou em nenhuma palavra que eu disse, não é?
        Bom, digamos que a sua história é ótima para um bom livro. Eu, se fosse você, escreveria a respeito.
        Nem o senhor acredita em mim...
        Não, eu não disse que não acredito. Acho bastante improvável, porém, não acho impossível. Mas, francamente, achar que seu melhor amigo tem tendências satanistas, só porque ele passou na mesma auto-estrada em que você se encontrava depois do seqüestro... Isto, realmente, é uma associação infundada. Não tem como eu apoiar uma linha de raciocínio dessas.
        É, acho que estou começando a pirar mesmo. Mas, se foi alucinação, como é que o meu amigo me pegou na estrada, então? – Pergunta Daniel, certo de que não está enlouquecendo.
        Digamos que não tenha sido alucinação desde o início. A alucinação começou depois que você bateu o carro. Provavelmente, você ficou desacordado por horas e, com isso, teve essas alucinações. Quando você acordou, totalmente perturbado com o acidente, seu subconsciente emitiu as imagens de quando você estava desacordado para o seu consciente, fazendo com que você acreditasse que foi tudo real. Então, quando acordou, você se encontrava perdido, pedindo ajuda na auto-estrada e, com isso, misturou realidade com fantasia. É bastante comum, em acidentes desse tipo, a pessoa perder a memória. Já no seu caso, como você estava passando um momento de perturbação interior, seus medos foram projetados no momento do acidente. Na verdade, não tem nada de extraordinário. É bastante simples e muito comum, no seu caso. – Esclarece o hipnotizador.
        É, acho que é isso mesmo. – Conclui Daniel.
        Mais alguma dúvida?
        É, até o caso do carro ficou mais ou menos convincente, mas... E a invasão do meu escritório?
        Bom, eu sou psicólogo, não detetive. Mas, acho que um caso não tem nada a ver com o outro. – Diz o hipnotizador, tentando convencê-lo de que foi tudo fruto de sua memória problemática.
        É, não tenho mais certeza de nada. – Diz Daniel, um tanto quanto confuso.
        Bom, então podemos começar com a sessão de hipnotismo, que é mais a minha área?
        Claro! – Responde Daniel, um pouco confuso.







Capítulo III


A Regressão II


Daniel deita-se no divã e tenta relaxar. O hipnotizador dá início ao seu jogo de palavras para a introdução à transição:
      Agora relaxe. Esqueça qualquer problema alheio aos seus pesadelos. Você começa a ficar cada vez mais relaxado. À medida que vou falando e você respirando, você entra num profundo estágio de introspecção. Agora, mentalize uma luz branca tão forte quanto a sua respiração. Os músculos já não oferecem mais resistência. A única força exercida em seu corpo é a de sua respiração. O ar entra e sai constantemente de seus pulmões. A cada respirada, você vai entrando num estado subconsciente mais profundo. As luzes começam a fazer uma fusão de cores cada vez mais fortes. Agora, quando eu contar regressivamente de dez até um, você entrará naquele mundo obstruído por sua memória. Dez. Nove. Oito. Sete. Seis. Você está quase, completamente, fora do seu corpo agora. Cinco. Quatro. Três. Dois. Não se esqueça, se em algum momento você sentir medo por algum motivo, ou ainda, não quiser ver algo,  tudo que tem a fazer é abrir os olhos. Um.


A Transição II

Estou novamente neste lugar cercado de luz. Sinto-me seguro pela luz que me rodeia. Parece que estou com a alma lavada, um sentimento que por mais que eu tente, não consigo explicar.
As luzes começam a girar, como da primeira vez que fiz regressão. As imagens vêm e vão constantemente. Nada faz o menor sentido. Só vejo imagens muito rápidas que não fazem nenhum sentido com a próxima cena.
Agora, posso ouvir a voz do hipnotizador dizendo:
      Agora está na hora de ver como você morreu. Lembre-se: a morte não é o fim, mas sim, uma pequena transição.


A Morte

Tudo parou de repente. Há apenas uma luz branca distante. Caminho em sua direção. Ela fica cada vez mais forte e brilhante. Repentinamente, ouve-se um estampido aterrorizante e, a luz se dissipa. A cena fica clara. Vejo aquela casa de outrora. Corro em sua direção para descobrir o que está acontecendo. Invado a casa, corro por sua sala e subo as escadas, em direção ao quarto. Algo me chama para ele. Invadindo-o, encontro um homem segurando um revólver. Ele está nervoso, tremendo, apavorado. Chegando mais perto, posso ver que o homem é Jean. Não entendo, pois ele parecia ser tão calmo, tão coerente. Em que ou em quem ele atirou? Observo que Jean olha insistentemente para o outro lado da cama, pois o corpo, provavelmente, está lá. Caminho para o outro lado da cama para ver quem morreu. Meu Deus! Glória! Não pode ser. Então, eu era a Glória?
Vejo que Jean está atônito com o assassinato. Por que ele mataria Glória? Eles pareciam se amar tanto. O que ele está fazendo agora? Ele está chorando demais. Se queria matá-la, por que está em prantos?
Meu Deus! Ele virou a arma para a própria cabeça. Ele não vai... Sim, ele vai se matar. Jesus Cristo! A cabeça dele explodiu! Tem sangue por todos os lados. O corpo dele cai sobre o dela, com a cabeça toda dilacerada. Morto! Por quê? Tantas perguntas e nenhuma resposta... Eu vou acabar enlouquecendo desse jeito... Quem sou eu, afinal? Eu sou uma vítima ou... sou um  assassino?


Os Boatos

Sou, agora, sugado desta cena de horror, indo parar nas ruas da distinta cidade. Ouço as pessoas falando sobre o assassinato. Estas pessoas nas ruas sempre de posse de jornais, fazem comentários. No jornal, consigo observar a data que estou vivenciando. Diz ali que hoje é dia 03 de Janeiro de 1929. As pessoas dizem coisas que parecem manipuladas pela mídia. Elas comentam sobre a traição de Glória. Falam em Bernardi como a principal vítima da história. Mas, quem é Bernardi? Estranho eu não tê-lo visto ainda. Elas não sentem pena da moça assassinada. Como as pessoas são hipócritas! Elas dizem que foi uma típica história de amor. “Mulher trai marido honesto e íntegro com um sujeito que não vale nada e, acaba sendo assassinada pelo amante ciumento que, provavelmente, a pegou com outro amante.”
Será que foi mesmo esta história? Ainda não estou convencido, pois acho que existe alguma outra história por trás disso tudo. Agora começo a crer que existe muito o que ver ainda. Não entendi muito bem o que houve mas, não acredito que tenha acontecido da forma como entendi.


O Jardim

Agora, sou sugado desta cena para ir de volta ao limbo. Encontro-me sozinho. Tudo se esfumaça. É tão quieto aqui. As luzes me cercam. Uma luz verde vem crescendo em minha direção. Vejo um enorme jardim, com árvores de todos os tipos; um imenso pomar, algo que nunca havia visto ou talvez nunca tivesse prestado atenção.
Estou, agora, deslumbrado com tamanha beleza. Será que é pra cá que viemos quando morremos? Será que estou vendo o lugar para onde vim depois que morri? Ou será que...
      Você faz perguntas demais, meu jovem.
      Quem é você?
      Como eu disse, você faz perguntas demais, meu jovem.
      Eu já vi tudo que tinha pra ver sobre o meu passado? – Pergunta Daniel.
      Claro que não. Senão, seu transe já teria terminado.
      Então, o que falta pra eu ver? O que...
      Acalme-se, meu jovem. Foi a sua ansiedade que o matou em sua última existência.
      Então, diga o que veio me dizer.
O homem, de aproximadamente 40 anos, rodeia uma árvore, olhando para o chão, como se procurasse algo. Então, vira-se para Daniel, dizendo:
      Meu jovem, não acredite em tudo que dizem...
      Mas, não há dúvida que Jean matou Glória. Eu vi. Pelo amor de Deus! – Diz Daniel, interrompendo o homem.
      Um mágico faz truques que não entendemos e que são apenas artifícios para enganar a visão, que é menos veloz do que as mãos treinadas de um ilusionista.
      Então, eu estou ficando louco?
      Vai ficar, se não ver as coisas por outros ângulos. As imagens nem sempre são o que representam. Não se deixe iludir por elas.
      Se você não veio me explicar nada, o que veio fazer aqui?
      Como você faz perguntas! Você será esclarecido quando chegar a hora. Por enquanto, lembre-se que, de concreto, que pode ser afirmado, que é claro e compreensível, somente a sua morte e a de Glória. O resto é, apenas, distorção dos fatos.
      Bom, se de concreto somente a minha morte e a de Glória, então eu era Jean e assassinei a Glória. É isso?
      Não. Eu disse que de concreto, somente a sua morte e a de Glória, nada mais.
O homem conclui e despede-se indo embora em meio ao jardim. Daniel fica pensativo, tentando encaixar as peças de seu quebra-cabeça mental.


A Reflexão

Agora posso dizer que sou um homem feliz. Ainda não descobri tudo sobre o meu passado, mas sei que a morte não é o fim. Agora sei que eu morro e meu espírito transcende. Posso até nunca provar nem fazer com que as pessoas acreditem no que vi. Mas, hoje eu sei que a gente morre, mas o espírito continua. Hoje, posso aceitar que a morte não existe. Antes eu acreditava que a morte era o fim e, isto não fazia muito sentido para mim. Mas, a vida inteira me fizeram crer nisto e, eu nunca parei para questionar nada. E, agora, que comecei a questionar tudo, estou encontrando respostas para perguntas que jamais havia feito antes.
Sei que ainda não estou apto para falar sobre esse tema tão delicado, que mexe com as crenças de muita gente, mas sei que posso, no mínimo, falar sobre as minhas experiências.
Tenho lembranças de minha infância. Lembro de meu pai contemplando o mar e dizendo o quanto éramos pequenos dentro do universo. Eu realmente achava aquelas palavras muito estranhas, pois, quando criança, me achava tão grande e, meu pai, maior ainda. Como ele podia se achar pequeno? Mas foi bem mais adiante que entendi o que ele quis dizer com tais palavras. Foi quando eu entendi que a comparação que ele fazia era: “Nós em relação ao universo, assim como o átomo em relação a nós.” Ou seja, “o átomo é tão insignificante para nós, quanto nós somos para o universo. Contudo, o átomo é tão fundamental para o nosso sistema, quanto nós somos para a engrenagem do universo”.
Nunca soube se meu pai era um sábio ou se ele apenas reproduzia o que o pai dele havia dito um dia; assim como não entendi, quando criança, o que meu pai quis me dizer. Acho que não estou preparado para entender o que aquele anjo, mentor, ou sei lá o quê, quis me dizer. Espero não enlouquecer antes de saber a verdade sobre o meu passado.


O Epitáfio

Começo, agora, a caminhar nesse imenso jardim. Lá adiante, vejo algo como um portal e uma cerca-viva ao seu redor. Algo estranho me puxa para lá, como na vez em que algo me puxava para dentro do quarto de Glória.
Chegando no referido portão, vejo um enorme gramado e lápides que “enfeitam” o lugar. Ao fundo, vê-se uma capela pequena e de simples beleza.
Uma tristeza enorme cresce dentro de mim, algo que parece sufocar. Não sei se quero realmente ver o que tem lá. Mas, agora que já me atirei de cabeça nesta história, eu vou até o fim.
Transpasso o portão e caminho por entre os inúmeros túmulos que são cobertos pela grama do imenso pátio.
Agora já posso avistar a lápide de Glória. Chegando mais perto, a sensação de sufoco aumenta ainda mais. Há um nó na garganta que não consigo desfazer.
Olho para a lápide quase sem coragem e, nela está escrito:

Em memória de nossa amada criança,
de olhos grandes e tão inocentes.

Aqui jaz
Glória Mendonça

                                                         De 09/09/1909     
                                                          A 02/01/1929
                                            
Neste momento eu senti tamanho vazio que achei que não iria suportar. Então, comecei a chorar, como se parte de mim tivesse morrido junto com ela. E, quando a imagem dela vagou dentro da minha cabeça, eu chorei como se fosse um bebê. Não entendo como eu pude matar uma criatura tão doce como Glória. Por que eu faria isso? O que eu não consigo entender é que, eu não sinto como se a tivesse matado. Mas, foi o que as imagens me mostraram.
Agora compreendo o porquê desta minha existência. Estou aqui para sofrer uma última vez para pagar pelo crime que cometi contra a pessoa que tanto amei e, que tanto me amou.
Chorando sobre o túmulo dela, vejo sua imagem na minha frente e, ela diz:
      Levante a cabeça, meu amor. Vá em frente, seja corajoso. Não chore sobre o meu túmulo, porque eu não estou mais aqui. Mas, por favor, nunca deixe a minha lembrança desaparecer. Pois, apesar de tu ainda não entenderes como; eu, ainda hoje, estou do teu lado. Pois quando marcamos de nos encontrarmos em um lugar distante de Bernardi, eu cumpri minha promessa. Vá em frente, Jean!
A imagem de Glória vai aos poucos se dissipando e, eu sinto que estou sendo chamado para voltar ao mundo atual.